Quando descobri que estava grávida, confesso que não esperava. Fui tomada pelo medo, principalmente porque, em 2023, eu já havia vivido uma perda gestacional precoce, também de uma menina. Depois dessa dor, não consegui mais planejar uma nova gravidez. Resolvi aguardar o melhor momento para planejar novamente no futuro. Entreguei tudo nas mãos de Deus e decidi que, quando fosse a hora certa, eu tentaria outra vez.
Em fevereiro de 2025, procurei um médico apenas para cuidar da minha saúde ginecológica e iniciar um método contraceptivo. Foi nesse momento que descobri que estava grávida. Deus me presenteou de uma forma inesperada.
A gestação, mesmo sendo considerada de risco — por eu já ter tido pré-eclâmpsia na minha primeira gestação e um parto cesáreo de urgência com 33 semanas —, foi saudável e bem acompanhada. Foi um período maravilhoso. Eu desejava muito viver uma gestação que chegasse até o final e que tudo ocorresse bem, conforme planejado. E recebi mais um presente que nem esperava poder receber novamente: estava gerando outra menina. Tudo, até então, era motivo de gratidão.
Então resolvi que tentaria o parto normal. Segui com uma doula e uma obstetra que estivessem alinhadas com o meu desejo. Fiz essa escolha porque acreditava que seria o melhor para minha filha e para mim, por ser uma via de parto considerada mais segura e benéfica. Meu desejo era ter o parto mais seguro possível e, por isso, tentei seguir caminhos mais naturais.
Foi marcada a indução no hospital para o dia 25/09/25, às 7h. Na noite anterior, às 22h30, tomei um shake indutor de parto e, logo em seguida, a minha bolsa estourou, além de eu ter apresentado um quadro intenso de diarreia.
As dores, no entanto, vieram de forma muito rápida e intensa durante toda a noite, porém intensas, mas ainda suportáveis. Procurei um pronto-socorro por volta das 5h da madrugada, pois percebi que poderia estar com a pressão alta. Lá vivi momentos de muita dor física e emocional. Sofri violência verbal, falta de empatia e acolhimento. Eu estava ali, vulnerável, e não tive minhas dores respeitadas.
Acreditando que tudo estava ocorrendo conforme o esperado, achei melhor irmos para o hospital onde eu já vinha fazendo todo o acompanhamento e onde a médica que acompanhou o meu pré-natal também estaria. Acreditei que lá eu e minha filha seríamos muito melhor atendidas e monitoradas. A forma como estavam me tratando no pronto-socorro também foi um impulso para querer sair logo dali.
Durante o atendimento inicial, foi realizado o doppler e os batimentos estavam normais. Depois, a enfermeira percebeu que os batimentos cardíacos da minha filha estavam começando a se alterar. Ainda assim, não fui devidamente informada sobre a gravidade da situação. Nenhuma explicação clara me foi dada e não houve comunicação adequada com a médica. Meu esposo assinou um papel para sairmos de lá e seguimos para o hospital onde eu realizava meu acompanhamento particular e onde o parto estava previsto para acontecer.
Seguimos para o hospital acreditando que tudo fazia parte do processo normal do parto. No caminho, senti dores muito fortes, insuportáveis, além de sensações de desmaio e tremores. Ao chegar lá, foi realizado o doppler e não foram encontrados batimentos cardíacos.
Fui encaminhada para uma cesariana de emergência. Após o nascimento, foi identificada uma ruptura uterina e constatado o óbito da minha filha. O útero foi reparado e, agora, uma outra gestação será ainda mais de risco. Sigo tentando conviver com as sequelas emocionais e físicas.
Às vezes, meu coração se enche de culpa. Eu me pergunto se poderia ter feito diferente, se outras escolhas teriam mudado tudo. Carrego essas perguntas comigo. Mas eu nunca quis que nada disso acontecesse. Jamais. Tudo o que fiz foi tentando protegê-la, tentando trazê-la ao mundo com amor.
Hoje, me apego à fé para continuar. Acredito que Deus a acolheu com todo o cuidado que aqui faltou. Acredito que ela está em paz, envolvida em amor, guardada no céu. E acredito que ela sabe o quanto foi e sempre será amada nas nossas vidas, para sempre.
